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quarta-feira, 6 de junho de 2018

Ensiriados (insyriated)


 A guerra da síria pode produzir situações surreais só comparadas as comunidades do Rio de Janeiro, onde o cidadão tem sua residência fixada exatamente no meio do fogo cruzado, no ponto exato onde duas facções criminosas se confrontam para a tomada do poder, ou onde a própria polícia encontra posição para uma melhor troca de tiros. E no encalço do problema, o direito à proteção da propriedade privada visto mundialmente como fundamental e garantido sem distinção a todos os cidadãos, é abandonado e agredido, gerando as piores consequências. O diretor belga Philippe Van Leeuw escolheu o caminho da metáfora ao filmar duas famílias enclausuradas dentro de um apartamento no meio do fogo cruzado para mostrar a real situação da fragilidade do povo sírio diante do atual conflito: as dificuldades de se refugiar, a impossibilidade da proteção aos incapazes, as violações aos direitos mais básicos do ser humano, e o desespero de não saber se a pessoa querida voltará a ser vista com vida. O roteiro se passa inteiramente dentro de um apartamento em um período aproximado de vinte e quatro horas: a tensão e a dor filmada em sequencias prolongadas sem cortes situam o espectador dentro do horror da guerra.  Um apartamento que já foi lar, passou a ser trincheira de defesa. Vencedor do Prêmio do Público no Festival de Berlim 2017. Concorreu a cinco prêmios no Festival Internacional de Cinema de Cairo, incluindo melhor filme, diretor e roteiro. Venceu na categoria melhor ator coadjuvante para Raouf Ben Amor e melhor atriz para Diamand Bou Abboud.  Nota 8,0

segunda-feira, 4 de junho de 2018

13ª Emenda (13th)


 Hoje em dia, ao dialogarmos sobre cinema, é inevitável o assunto do forte impacto das atuais exibições via streaming, em especial a NETFLIX, que já conta com mais de 100 milhões de assinantes mundo afora que ainda compartilham senhas e perfis com amigos e familiares. Com todos os prós e contras, a NETFLIX tem uma força comparável com as que tinha as locadoras de VHS nas décadas de 80 e 90, e com o chamariz a mais de que a maior parte da sua arrecadação está sendo utilizada para produções próprias, que vão dos Blockbusters ao cinema alternativo, passando até pelo de garagem.  A questão que surge com impacto é se vale a pena ou não pagar em média trinta reais mensais para ter acesso aos serviços do provedor global mais famoso de filmes e séries. Sempre respondo que vale a pena sim, em especial pelos documentários originais da casa. Independente ou não de você não gostar de séries, assim como eu, ou não achar animador seu conteúdo quase nulo de clássicos do cinema mundial, a NETFLIX revolucionou o gênero documental, e se a pessoa vem me dizer que não curte esse gênero, eu cordialmente peço para começar a ver alguns em questão e tentar mudar esse conceito. O primeiro que indico, é “A 13ª Emenda”, que não é só um belo filme, é um documento necessário para o bom entendimento do preconceito racial e do sistema carcerário dos Estados Unidos. A diretora afrodescendente Ava DuVernay (Selma: Uma luta pela Liberdade) começa a obra questionando o porquê dos EUA que tem 5% da população mundial em seu território, ter 25% dos detentos de todo o mundo enjaulados nas suas penitenciarias; e de forma didática e de denúncia, com  testemunhos de intelectuais, políticos, assessores, lobistas, jornalistas e especialistas em assuntos tão diversos quanto história ou economia, ela constrói um quadro chocante da política adotada pelo governo de por medo na população e enjaular de forma perpétua cidadãos pobres e negros. A partir disso a diretora explica de forma equilibrada como prisioneiros negros foram usados para reconstruir a economia do Sul após a Guerra Civil, o surgimento da Ku Klux Klan, a onda de linchamentos, enforcamentos e assassinatos em massa de negros e toda a segregação construída com a ajuda da mídia e do próprio cinema. O filme foi selecionado para abertura do festival de Nova Iorque. Imperdível Nota, 9,5

sábado, 2 de junho de 2018

O Insulto (L'insulte, 2017)


Contando os altos e baixos e os prós e contras, uma coisa é incontestável nos 13 anos de governo do PT no executivo nacional, a população se dividiu em esquerda e direita, coxinha e mortadela, golpista ou petralha.  Qualquer que seja o modo que você se posicione (ou não se posicione), vão te enquadrar numa dessas categorias. E quando dois indivíduos no extremo dessas posições de encontram, seja numa roda de chope ou em um papo de desconhecidos dentro do transporte público, a coisa ferve, e se não houver aquela turma do “deixa disso”, o bateboca termina em tapas e bofetões. E foi apenas pouco mais de uma década de uma “esquerda” que jamais havia sentado no trono principal de Brasília. Imagina agora um conflito internacional de 70 anos, envolvendo além da política, disputa de território, guerras, terrorismo, e extremismo religioso? É nesse clima de tensões extremas, em um bairro de refugiados libaneses, que um insulto toma proporções gigantescas, e pode inclusiva ameaçar qualquer acordo de paz negociado há anos entre várias nações. O filme do aclamado diretor libanês Ziad Doueieri constrói degrau por degrau, a escada de um problema que seria facilmente solucionado se não fossem as divisões, os conflitos, os costumes, e acima de tudo o preconceito com o próximo que não conhecemos pessoalmente, mas que carrega em sí todo um ódio cultivado em anos de uma política agressiva que o que menos faz é dialogar com aqueles que sofrem suas reais consequências. Kamel El Basha, levou a estátua de melhor ator no Festival de Veneza, e foi o primeiro filme libanês indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Nota 8,0