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segunda-feira, 30 de abril de 2018

Pela Janela



Rosália é uma sexagenária que trabalha há trinta anos em uma pequena empresa de São Paulo. O dono, que começara com um pequeno trabalho de montagem de peças eletrônicas, conseguira ampliar o negócio a ponto de poder manter algumas dezenas de funcionários que, manualmente, montam fusíveis e outros artefatos descomplicados. A rotina do microcomércio é modificada a partir da sua fusão com uma empresa maior, momento em que Rosália é dispensada da noite para o dia. Sem emprego, com a rotina de três décadas quebradas, a depressão começa a querer das as caras, e a tentativa de consolo vem do irmão mais velho, que deve entregar um carro em Buenos Aires e a convida para acompanha-lo. A partir daí estamos diante de um Road Movie onde a personagem principal começa a viver pequenos prazeres que até semana anterior era improvável, pela carga horária exigida no seu emprego. Cada vento no rosto, cada contato com pessoas diferentes e cada visita a algum ponto turístico, acontece como se fosse uma nova experiência espiritual. E a economia de palavras, de linguagem, de comunicação verbal, não se dá apenas por Rosália não dominar o idioma do país vizinho, e sim porque de uma hora para outra ela aprendeu a exteriorizar os sentimentos muito mais pelo olhar do que pelas palavras. Estreia segura da cineasta brasileira Caroline Leone, que transmite de forma simples o retrato amável de dois personagens que apesar de já terem vivido uma vida inteira, ainda descobrem a poesia em pequenos gestos. Vencedor do Panorama Internacional Coisa de Cinema na categoria Melhor Filme, e do 12º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro nas categorias de Melhor atriz pra Magali Biff, Melhor ator coadjuvante para Cacá Amaral e Melhor Som.  Nota 80

sábado, 28 de abril de 2018

Em Pedaços "Aus dem Nichts"



Em tempos de intolerância política e preconceito de classe, onde ao lado da nossa casa o assassinato covarde de Merielle Franco é menosprezado e até mesmo aplaudido, e um pouco além dos muros do nosso quintal o neofascismo é construído com a inércia de grande parte da sociedade, o nosso filme de Fatih Akın cai como uma luva. Descendente direto de turcos, mas nascido na Alemanha, o diretor já sentiu na pele o preconceito e a dificuldade de manter suas tradições em um pais com forte histórico de violência racial. Divido em três partes que poderiam muito bem servir como curta metragens independentes, mas que se completam, o filme toma como prioridade a visão feminina da viúva, que perde o marido e filho de seis anos em uma explosão terrorista em frete ao estabelecimento de trabalho, restando claro que o alvo era realmente as vítimas.  Apesar de quase totalmente linear – com a exceção das poucas passagens de lembranças e saudades da personagem principal – é impossível não voltarmos ao passado para fazermos uma avaliação do ocorrido, e até mesmo nos colocarmos no lugar dessa família de origem estrangeira que por problemas em um passado remoto quase se transforma em culpada, mesmo com toda a obviedade das provas mostrada no tribunal sobre a motivação do atentado. Para os espectadores da área jurídica (como eu), o filme tem um atrativo a mais: a ratificação de que as vezes por mais que lutamos por uma verdade, teremos contra nós reacionários, partidários ou não da extrema direita, que farão de tudo para que a impunidade prevaleça, para assim camuflarem o ódio e o preconceito, dando ainda mais forças ao machismo, xenofobismo, homofobia e toda a violência direcionada às classes economicamente menos favorecidas. Acima de tudo, é uma denunciação a nova tendência de inverter valores. Foi premiado no Festival de Cannes 2017 – Melhor Atriz – Diane Kruger, e levou o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Nota 9.5

terça-feira, 24 de abril de 2018

O Terceiro Assassinato


Nem sempre a relação entre advogado e cliente é amistosa, muitas das vezes estratégias de defesa não são unânimes, assim como são comuns às discordâncias entre quais testemunhas devem ser arroladas aos autos ou quais tipo de provas materiais podem ser utilizados sem prejudicar o que já foi apresentado no processo. Essa relação se torna mais tensa se o processo resultar em pena de morte ou prisão perpétua, especialmente onde a legislação admite que a confissão do homicídio pelo réu atenua a pena capital para a prisão perpétua. E é exatamente nesse ponto que começa a relação entre o famoso criminalista Shigemori e o acusado de latrocínio Misumi, que apesar de réu confesso, muda à versão do crime a cada visita do advogado.  Com a proximidade  do julgamento, e as investigações feita pelo próprio advogado do réu, diferentes versões do crime e da sua motivação vão surgindo, e a cada dialogo e decisão, velhas questões filosóficas sobre o bem e o mal, criminalidade e ética profissional, são postas para nos fazer rever conceitos. Apesar de lento e um pouco confuso (o roteiro é cru e não toma partido de nada), o filme é bonito e cumpre o papel de deixar o espectador com mais dúvidas que certezas.  Direção segura de Hirokazu Koreeda, que mais uma vez dá razão à crítica em lhe eleger um dos diretores mais importantes da nova geração do cinema japonês.  Está em cartaz em alguns cinemas, e participou da seleção oficial da mostra competitiva do Festival de Cinema de Veneza do ano passado. Nota 8.0

sábado, 7 de abril de 2018

A Morte de Stalin



Poucos estadistas tiveram sua vida tão biografada quanto Stalin, mas a morte do líder soviético ainda está longe de ter um consenso entre os historiadores.  Todavia, sem a pretensão de tomar partido sobre a polêmica da causa mortis, o diretor e roteirista britânico Armando Ianucci lança um olhar cômico sobre as consequências dessa “tragédia” para os camaradas mais próximos ao ditador, e a todos aqueles que de alguma forma tem que lidar pessoalmente com corpo de Stalin, de forma voluntária ou não. E o roteiro se sustenta nas discussões e decisões que devem ser tomadas dali em diante sem a presença daquele que impunha suas vontades a preço de morte daqueles que as discordassem. O pesado jogo do poder ditatorial é atenuado não para fins políticos, mas para o deleite dos espectadores na degustação de cenas onde os poderosos se deparam com situações surreais, mas não inverossímeis, em que a cúpula do poder tem que conseguir alinhar postura autoritária com  o que ainda lhes resta de humanidade para tentar transparecer que ainda existe punhos firmes para dirigir o maior país do mundo. Destaque para soberba atuação de Steve Buscemi no papel de Nikita Khruschev, secretário-geral do Partido Comunista, cuja dificílima missão é interpretar um personagem tenso que a todo custo tenta aliviar as pressões daqueles que já sabem que que o cargo mais cobiçado da Europa oriental está vago e deve ser ocupado com o máximo de urgência. Proibido de ser exibido nos cinemas da Rússia, e com momentos que podem incomodar aos socialistas mais radicais, o filme é um ótimo passatempo de humor negro. Foi indicado ao BAFTA nas categorias de melhor filme e roteiro adaptado. Nota 8.0