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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O Capital

O filme acompanha a trajetória do francês Marc Tourneuil, mais jovem presidente de um imenso
banco europeu, que começa a mover as peças para se tornar grande mundialmente. A primeira atitude do jovem a frente do banco é reunir numa palestra, presencial e virtual, todos os seus funcionários, e dizer que quer relatórios sigilosos de cada um dizendo o que os impede de crescer dentro da empresa, e que a partir disso o nepotismo, o assédio moral e as burocracias internas terão seu fim.  Sob os aplausos maiúsculos dos funcionários da base, o jovem saí aclamado da palestra, mas mal sabem eles que o objetivo do relatório é a demissão de mais de um terço do total de empregados, visto que isso geraria um crescimento nas ações e um grande lucro em pequeno prazo. O cineasta grego naturalizado francês Constantin Costa Gravas, continua ativo a comprometido politicamente com seu tempo, mostrando de um modo um tanto didático as manobras e artimanhas dos grandes banqueiros mundiais, que atuam em conjunto com o claro objetivo de deixar os ricos cada vez mais ricos, e os pobres ainda mais miseráveis, alimentando um sistema capitalista selvagem que a cada dia cumpre seu principal e fiel objetivo: distribuição desigual das riquezas produzidas na terra. Nota 8,5

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Go Go Tales


Falar em Abel Ferrara é falar um pouco do cinema independente estadunidense; nunca preocupado com sua reputação de cineasta dentro de grandes estúdios, Ferrara é aquele aluno que senta na última cadeira da sala de aula e tem como companhia os excluídos, aqueles "maus elementos", os malditos que vira e mexe estão caminhando na contra mão das tendências hollywoodianas. O diretor frequentemente é visto com Christopher Walken, Joe Cortese, Harvey Keitel, David Caruso, Annabella Sciorra, Paul Calderon, Asia Argento, Willem Dafoe, e cia, sendo esse último seu principal aliado nas atuações de seus filmes. “Go Go Tales” é uma bela metáfora ao cinema rebelde, cuja referência está no clube de striper  Paradise Lounge de Ray Ruby, um local hoje pouco frequentado, com dívidas trabalhistas, máquinas com defeito e alugueres atrasados. Ray (Dafoe) dá o nome e a alma pelo estabelecimento, investe e suborna, aposta e sonha em algo que já ficou esquecido no passado. O pouco do dinheiro que ainda sobra é usado no jogo, na tentativa de que do acerto na loto possa estar o investimento que acha necessário para a recuperação da casa. O diretor de fotografia faz um passeio de quase duas horas pelo interior de uma boate onde existem talentos individuais sem visibilidade, nessa fábula autodepreciativa que indiretamente expõe um dos problemas da sétima arte na atualidade: a preferência do público ao borrão. Apesar de ter sido filmado pelo renomado diretor norte americano Abel Ferrara, o filme não teve seus direitos comprados nos Estados Unidos, não sendo exibido em nenhum de seus cinemas, exceto numa mostra em NY intitulada "Abel Ferrara no século XXI" . O longa, sem muita explicação, foi excluído da competição no Festival de Cannes, e foi exibido no festival internacional de cinema de Montreal.  Nota 7,5

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

“Vovó está dançando na mesa”


O título sugere uma comédia, e o pôster mostra simplesmente uma garota com uma mala na mão caminhando pela floresta. Aqueles que começam a assistir esperando uma comédia já vão se decepcionar na primeira cena: uma menina com o rosto machucado começa a contar a triste história da sua família; e suas recordações e o passado remoto dos acontecimentos são mostrados no estilo stop motion (técnica de animação muito usada, que aqui se faz com aquelas massas de modelar). Essa premissa estabelece uma narrativa secundária dentro da compreensão limitada da imaginação de menina Eini, que sofre maus tratos do pai. Essa técnica que lembra alguns desenhos infantis, não suaviza o tema abordado, pelo contrário, angustia o espectador por se tratar da imaginação e do martírio de uma adolescente enclausurada em sua casa dentro de uma floresta desde que nasceu, e que não conhece nenhuma tecnologia, e esconde suas menstruações com medo de apanhar, por não saber se é natural. A diretora sueca Hanna Sköld, que começou a fazer cinema em 2009 com empréstimo do banco e doações em redes sociais, se projeta agora com uma revelação do cinema escandinavo. Seu filme é forte, e discute um tema importantíssimo e atual, a violência contra a mulher. Segundo dados de 2014 da Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia, a Suécia é o segundo país que mais pratica esse tipo de violência, ficando atrás apenas da Holanda. Sköld não faz só cinema, faz um alerta ao mundo. Levou o Prêmio de Melhor Direção no The WIFTS Foundation, e foi exibido no festival de Berlim. Nota 8,5

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Menino 23


Nos escombros de uma velha fazenda em uma cidade no interior de São Paulo, foram achados inúmeros tijolos gravados com a suástica nazista. O historiador Sidney Aguilar, curioso com o fato, fez uma profunda investigação e descobriu um fato aterrador: Na década de 1930, uma influente e abastada família com terras naquela região, foi até a cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente no orfanato Romão de Mattos Duarte, e “adotou” cerca de cinquenta crianças, todas elas negras. Ao chegar na fazenda, longínqua de qualquer povoado, e rodeada de mato, elas foram tratadas como escravas e obrigadas a trabalhar em troca de comida. Trabalhando de sol a sol, sem remuneração, recebendo educação precária e sendo submetidas a castigos físicos em caso de indisciplina, as crianças eram obrigadas e vestir uniformes similares aos de membros da SS, e a cantar o hino de uma organização de extrema direita simpatizante de Hitler. O diretor Belizário Franca faz um trabalho belíssimo ao localizar e entrevistar os dois últimos sobreviventes desse momento de escravidão em plena era Vargas, que passaram o restante da vida tentando esquecer a infância perdida. Levou os prêmios de melhor roteiro e melhor montagem no 26º Cine Ceará. Nota 8,5

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Apprentice" (Aprendiz)


O longa é uma produção de Singapura dirigido pelo estreante Boo Junfeng, que conta a história de um jovem que vai trabalhar em uma penitenciária de segurança máxima de Singapura e logo é "contemplado" para ser estagiário do homem que faz as execuções dos condenados à pena de morte no local. A questão  moral, política e ética vem implicitamente a toma, visto que, o pai do rapaz, num passado remoto, foi executado pelo seu atual chefe imediato. Você encararia esse novo emprego nessas condições?
O filme explora o comportamento humano dentro de um sistema que modula seus próprios conceitos e preconceitos.
Nota 8,0

"Ilegítimo (Ilegitim)"


Esse filme romeno aborda dois temas incômodos: Aborto e incesto. O diretor Adrian Sitaru nos coloca inicialmente dentro de uma sala em uma mesa de almoço onde os filhos questionam o pai sobre ser verdade ele ter denunciado outros médicos pela realização de abortos na época do regime comunista de Nicolae Ceausescu, o assunto se torna caloroso quando pai confirma a notícia, mas diz que o fez por convicções ideológicas. Posto contra parede e pressionado pelos filhos idealistas, principalmente pela filha que estuda filosofia, o pai sai de casa, mas não sem antes contar que foi graças a sua atitude de ser contra o aborto que os dois filhos gêmeos estão no mundo, pois a falecida mãe queria tirá-los ao saber que estava grávida de dois. Com enquadramento um tanto irregular, câmeras próximas e zoons frequentes, a fotografia coloca o espectador como voyeur dentro uma família que lida com suas próprias inseguranças, dúvidas e medos. A narrativa se torna imprevisível, e os diálogos e defesas das diferentes posições são colocados de modo franco sem uma aparente parcialidade da produção. O filme participou das mostras do festival de São Paulo e de Berlim, ambos em 2016. Nota 8.0