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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Forever Young



Eu só percebo que estou envelhecendo quando vou pegar algo pesado e sinto aquela fisgada em uma região do braço que até então eu nem sabia que existia, que dirá que poderia passar algum nervo cujo esforço o fizesse doer. Sempre achei que minhas preferências e escolhas, meus gostos e minha cultura, permaneceram em mim um tanto fieis desde que eu soube filtrar pela primeira vez lá na adolescência o bom do ruim, a arte do borrão, o céu do inferno. Algumas mudanças normais da idade nosso corpo se limita a aceitar, e não paramos para pensar muito nelas, como por exemplo deixar de ver desenho animado, não comer três pacotes jujuba em dois minutos, ir diminuindo o ritmo no videogame e no álcool, começar e ver TV Senado, etc. De resto vamos envelhecendo sem nos dar muita conta disso, os anos passam e acabamos achando graça da molecada que comete as mesmos erros que cometíamos, que faz as mesmas merdas que fazíamos. Mas de vez em quando vem a saborosa recordação daquela nossa juventude sem muita responsabilidade, dos amigos inconsequentes, dos parentes que se foram e de toda uma geração anos 80 que não era nem fiscalizada por redes sociais, nem rastreada por aparelhos celulares, e que perder uma hora dentro de uma locadora de VHS era considerado um passatempo cultural aceito por nossos pais. Conquanto, ao me reportar ao passado dessa maneira, acabo me estatelando naquela armadilha que o mestre Woody allen nos mostrou o quanto é fácil de cair: no seu magnífico filme Meia-noite em Paris, o roteiro mostra que o personagem vivido por Owen Wilson consegue voltar no tempo quando o relógio bate meia-noite, e descobre que todas as gerações - sem exceção - consideram melhor a geração que antecedeu a sua, e ninguém constata que o momento vivido, ou seja, “o agora”, seja melhor que um passado bastante recente.
 Ainda que não bata nessa mesma tecla, EnquantoSomos Jovens (while we were Young), o novo filme do diretor estadunidense Noah Baumbach, fala um pouco desse saudosismo, dessa vontade de permanecer eternamente jovem; de que nossas idéias e ideais não envelheçam, de que não percamos a capacidade de nos divertir sem nos preocupar com olhares de terceiros e de que não deixemos que a tecnologia nos absorva de tal forma que nossa vida dependa exclusivamente dela.
O roteiro trás um casal na casa dos 40 anos que vivem da arte, da criatividade, pois são documentaristas, tendo ele inclusive um trabalho reconhecido por parte do público. São felizes juntos, tem suas manias, seus amigos da mesma faixa etária e se vestem como a sociedade estabelece. Acontece que eles fazem amizade com um casal de vinte e poucos anos: ele um iniciante no estudo de cinema (também querendo fazer documentários), e ela dona de uma pequena marca de sorvete caseiro. Com pouco tempo de conversa o casal quarentão fica encantado com os jovens, aceita o convite de passar a tarde na casa deles e começa a achar que aquela nova amizade pode modificar a monotonia atual e tornar mais feliz seu modo de viver.


Apesar da primeira hora ser muito boa, da trilha sonora ser um arraso e de não termos o que reclamar das atuações, o filme não consegue se manter tão legal até o fim. A partir das desconfianças de que o casal jovem possa ser uma fraude, à parte legal de toda a nostalgia dos vinis, do VHS e das farras loucas, começa a dar espaço para piadas com menos graças e situações clichês que já estamos acostumados. Contudo, estamos diante de uma boa comédia que faz uma bela crítica daquilo que antes era legal e hoje não é mais (ou do que hoje é legal e ontem era proibido), e de uma sociedade que parece dar mais importância a moldes repetitivos e esperados, à aqueles criativos e surpreendestes.
Nota. 7,0

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Servidão Serva Sérvia




Você pode achar um absurdo que a primeira cena do filme seja a de um rapaz que parece ameaçar a menina, e que ela aparentando medo se deixe bolinar enquanto é filmada pelo celular, câmera essa usada em grande parte do filme para mostrar sexualidades. Mas estamos diante de um filme de amor.
Você pode achar que já deu no saco esses filmes com adolescentes se drogando e abusando do álcool, e que essa rebeldia já foi filmada mundo afora desde a década de cinquenta, e nada mais é novo, ou assusta. Mas dessa vez, estamos diante de um filme de amor.
E se você é conservador, evangélico ou moralista, e não desligar o filme nas primeiras cenas de masturbação, e aguentar calado o sexo oral explícito, ou mesmo o rapaz se masturbando e jorrando esperma na barriga da menina, você vai ver que se trata de um filme de amor.
Então, se você começar a se interessar pelos personagens, e ver que há sentimento envolvido entre jovens que vivem em um país cujo passado recente foi marcado pela guerra civil, e de que toda sua história envolve anexações, separações territoriais, mudanças drásticas de política econômica, e dúvidas quanto a um futuro
de paz, você vai ver que se trata de filme de amor.
E se você não notar isso, e perceber somente um bando de delinqüentes juvenis que fazem mau uso da tecnologia, que não respeitam os próprios parentes doentes, e que não tem nem mesmo amor próprio, você vai ver que CLIP é um filme triste, com a clara intenção de incomodar, e que mostra os problemas da Sérvia por um ângulo perturbador, imoral, mascarado por pornografia e erotismo vulgar.  E de caos a caos, de cena a cena, o filme ainda vai tentar te passar, mesmo que na sua última cena, que estamos sim diante de um filme de amor.

Nota, 70

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Novos Ares, Consequências Incertas



Toda pessoa casada – ou que namore há bastante tempo – quando sente o relacionamento esfriar, ou mais especificamente, quando percebe que a “cama está ficando morna” e não quer trair o parceiro, senta pra conversar. Eis uma atitude honesta: reconhecer o declínio e tentar mudanças de melhoria. Do diálogo entre os pombinhos que caíram na mesmice podem advir muitas surpresas, ideias e tentativas de solução, e a mais comum de todas é a abertura a novas experiências sexuais, outros fetiches; partilhar fantasias que até então ficavam presas em um compartimento seguro do cérebro e que só eram liberadas nas solitárias masturbações no chuveiro ou em frente a um monitor de computador. Dependendo da receptividade das indiretas jogadas ao acaso, a primeira ideia que vem, principalmente dos homens, é por mais alguém na relação,e de preferência uma mulher mais jovem, bonita e que toparia participar de um ménage à trois sem frescuras. As consequências disso podem ser a mais variadas, para o bem ou para o mal do casal, ou para o bem somente de uma ou duas das três partes envolvidas. E acho que foi isso que o diretor de O Uivo da Gaita quis dizer no seu filme.

 Parece que o jovem diretor Bruno Safadi, apesar do seu sobrenome, não tinha em mente somente safadeza ao realizar essa película de um pouco mais de uma hora de duração (um dos méritos do filme é ser pequeno). No roteiro, um casal que parece  saturado da rotina,  querendo mudanças paisagísticas, amorosas e sexuais. Tudo isso é explicado com imagens, tomadas longas e pouquíssimos diálogos, e a não linearidade dos acontecimentos deixa claro que a proposta foi bem aceita, a chegada de uma outra mulher atiça a sexualidade do casal. Contudo, quando um presente é dado para duas pessoas, uma delas acaba gostando mais que a outra, e isso pode trazer a dor, principalmente se o presente também tem sentimentos. A fotografia é bonita, mas o filme se arrasta por ela, e a câmera para por tempo exagerado em uma árvore, ou no mar, ou em qualquer paisagem que lembre a tranqüilidade e a sensação de bem estar que a natureza transmite. E a história não tem um ponto de apoio para que esse tipo de riqueza visual dê seguimento aos acontecimentos e as cenas eróticas. O longa se vale muita mais da beleza e do talento das atrizes do que de qualquer outro artifício pra manter o público até o final da exibição. Poderia ser um curta metragem de 20 minutos, no máximo.
Nota 5,0

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Amor Suicída



A revolução francesa aconteceu, rolaram cabeças em um país bem próximo, e o povo clama por direitos sociais. Os lemas liberdade, igualdade e fraternidade são levantados, são impostos, estão em expansão, e o clamor por igualdade é a grande pedra no sapato da alta sociedade no começo do século XIX. É esse o ambiente que o fio condutor de AmourFou percorre e entra na intimidade da alta sociedade alemã e no seu medo de perder os privilégios conquistados através da exploração da classe pobre: dos altos impostos obrigatórios somente para quem tem pouco poder aquisitivo, dos baixos salários para os que mais trabalham e de toda uma repressão econômica e social que contrastava no conforto de poucos e na miséria de muitos. Agora os agricultores começam a não pertencer mais ao senhor feudal, começam a se negar a pagar altos impostos e a se mobilizar contra as injustiças de uma classe que até então se julgava intocável.
A diretora húngara Jessica Hausner usa como pano de fundo esse cenário em ruínas para contar a história real do poeta Heinrich von Kleist, que começa a perceber as mudanças repentinas na sociedade e perde a vontade de viver, e a partir daí tenta convencer a mulher que ama a se suicidar junto com ele; e diante da negativa da mulher amada, que também é sua prima, o poeta busca alternativa na fragilidade de outra uma mulher, casada, mas que tem uma doença que segundo os médicos é incurável e fatal.


Amour Fou faz uma leitura interessante do egoísmo, tanto econômico quanto sentimental. Mostra o amor sem paixão, foca na perspectiva de pessoas em manter as aparências. Contudo, para que isso seja perceptível, o filme se concentra mais na amante de suicídio do que no próprio poeta. Mostra o lado humano da mulher, antes feliz como esposa e mãe, e agora atacada por uma doença não diagnosticada, que, ou dizem ser fatal ou simplesmente atenuam como “coisas de mulher”, e acaba assim fragilizada e comovida com a estranha proposta do poeta, de quem também é fã.

Nota, 85