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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

“Vovó está dançando na mesa”


O título sugere uma comédia, e o pôster mostra simplesmente uma garota com uma mala na mão caminhando pela floresta. Aqueles que começam a assistir esperando uma comédia já vão se decepcionar na primeira cena: uma menina com o rosto machucado começa a contar a triste história da sua família; e suas recordações e o passado remoto dos acontecimentos são mostrados no estilo stop motion (técnica de animação muito usada, que aqui se faz com aquelas massas de modelar). Essa premissa estabelece uma narrativa secundária dentro da compreensão limitada da imaginação de menina Eini, que sofre maus tratos do pai. Essa técnica que lembra alguns desenhos infantis, não suaviza o tema abordado, pelo contrário, angustia o espectador por se tratar da imaginação e do martírio de uma adolescente enclausurada em sua casa dentro de uma floresta desde que nasceu, e que não conhece nenhuma tecnologia, e esconde suas menstruações com medo de apanhar, por não saber se é natural. A diretora sueca Hanna Sköld, que começou a fazer cinema em 2009 com empréstimo do banco e doações em redes sociais, se projeta agora com uma revelação do cinema escandinavo. Seu filme é forte, e discute um tema importantíssimo e atual, a violência contra a mulher. Segundo dados de 2014 da Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia, a Suécia é o segundo país que mais pratica esse tipo de violência, ficando atrás apenas da Holanda. Sköld não faz só cinema, faz um alerta ao mundo. Levou o Prêmio de Melhor Direção no The WIFTS Foundation, e foi exibido no festival de Berlim. Nota 8,5

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Menino 23


Nos escombros de uma velha fazenda em uma cidade no interior de São Paulo, foram achados inúmeros tijolos gravados com a suástica nazista. O historiador Sidney Aguilar, curioso com o fato, fez uma profunda investigação e descobriu um fato aterrador: Na década de 1930, uma influente e abastada família com terras naquela região, foi até a cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente no orfanato Romão de Mattos Duarte, e “adotou” cerca de cinquenta crianças, todas elas negras. Ao chegar na fazenda, longínqua de qualquer povoado, e rodeada de mato, elas foram tratadas como escravas e obrigadas a trabalhar em troca de comida. Trabalhando de sol a sol, sem remuneração, recebendo educação precária e sendo submetidas a castigos físicos em caso de indisciplina, as crianças eram obrigadas e vestir uniformes similares aos de membros da SS, e a cantar o hino de uma organização de extrema direita simpatizante de Hitler. O diretor Belizário Franca faz um trabalho belíssimo ao localizar e entrevistar os dois últimos sobreviventes desse momento de escravidão em plena era Vargas, que passaram o restante da vida tentando esquecer a infância perdida. Levou os prêmios de melhor roteiro e melhor montagem no 26º Cine Ceará. Nota 8,5

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Apprentice" (Aprendiz)


O longa é uma produção de Singapura dirigido pelo estreante Boo Junfeng, que conta a história de um jovem que vai trabalhar em uma penitenciária de segurança máxima de Singapura e logo é "contemplado" para ser estagiário do homem que faz as execuções dos condenados à pena de morte no local. A questão  moral, política e ética vem implicitamente a toma, visto que, o pai do rapaz, num passado remoto, foi executado pelo seu atual chefe imediato. Você encararia esse novo emprego nessas condições?
O filme explora o comportamento humano dentro de um sistema que modula seus próprios conceitos e preconceitos.
Nota 8,0

"Ilegítimo (Ilegitim)"


Esse filme romeno aborda dois temas incômodos: Aborto e incesto. O diretor Adrian Sitaru nos coloca inicialmente dentro de uma sala em uma mesa de almoço onde os filhos questionam o pai sobre ser verdade ele ter denunciado outros médicos pela realização de abortos na época do regime comunista de Nicolae Ceausescu, o assunto se torna caloroso quando pai confirma a notícia, mas diz que o fez por convicções ideológicas. Posto contra parede e pressionado pelos filhos idealistas, principalmente pela filha que estuda filosofia, o pai sai de casa, mas não sem antes contar que foi graças a sua atitude de ser contra o aborto que os dois filhos gêmeos estão no mundo, pois a falecida mãe queria tirá-los ao saber que estava grávida de dois. Com enquadramento um tanto irregular, câmeras próximas e zoons frequentes, a fotografia coloca o espectador como voyeur dentro uma família que lida com suas próprias inseguranças, dúvidas e medos. A narrativa se torna imprevisível, e os diálogos e defesas das diferentes posições são colocados de modo franco sem uma aparente parcialidade da produção. O filme participou das mostras do festival de São Paulo e de Berlim, ambos em 2016. Nota 8.0