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Ideia, cinema, literatura, opinião, crítica, política, Direito, dia-a-dia - Um espaço para escrever, relaxar e soltar o verbo.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Dor e Crença



Claudia Llosa é uma cineasta peruana. Ela levou o Urso de Ouro em Berlim em 2009 pelo sensacional “A Teta Assustada”, que fala sobre a cultura indígena peruana e suas influências europeias, e pra mim o melhor filme já realizado naquele país. Ela é sobrinha do escritor Mário Vargas Llosa, Nobel de literatura em 2010. Então, estamos falando da nata cultural do Peru, país cuja expressão internacional normalmente fica atrelada a sua civilização milenar o ao credo de visitas alienígenas.

Marcas do Passado” (Aloft) é o terceiro filme da diretora, e o que tem em comum com os antecessores é a marcante presença feminina, às vezes não como heroína, mas como gente como a gente, que tem que tomar decisões, optar por escolhas e encarar suas consequências.
Cética e com um filho doente já desacreditado pelos médicos, Nana Kunning vai atrás de um curandeiro famoso na região, cuja procura é tanta que existe um sorteio para ver qual criança será “atendida” por ele. Contudo, a visita não ocorre como esperado, e quando o falcão de estimação do seu outro filho sofre um acidente durante a cerimônia e acaba com a sessão de cura, as coisas mudam a sua vida.
A partir daí ficamos diante de uma história atraente e desconfortável: uma mãe que perde o filho que mais ama, ou talvez aquele que mais a ocupe por se tratar de uma criança doente, e que com a dor da perda é convencida de que tem o poder da cura, já que uma outra criança é curada dos olhos depois de receber seu toque. Essa dúvida se entrelaça com sentimentos de impotência e enfastia, e ela abandona o outro filho na esperança de ser portadora de milagres, e vai para um local quase inóspito para não ser mais encontrada.
Filmado em meio ao deserto gélido canadense o filme tem uma boa trilha sonora e a excepcional atuação (apesar de um pouco curta) de Cillian Murphy, que dezoito anos depois vê a oportunidade de se encontrar com a mãe que o abandonou sem muita explicação. É um filme bonito, tanto na fotografia quanto na mensagem que passa. E apesar de parecer ter um final um pouco injusto, é fiel à vida cotidiana, que nem sempre é justa em seus nobres momentos.

Nota 8,0

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Forever Young



Eu só percebo que estou envelhecendo quando vou pegar algo pesado e sinto aquela fisgada em uma região do braço que até então eu nem sabia que existia, que dirá que poderia passar algum nervo cujo esforço o fizesse doer. Sempre achei que minhas preferências e escolhas, meus gostos e minha cultura, permaneceram em mim um tanto fieis desde que eu soube filtrar pela primeira vez lá na adolescência o bom do ruim, a arte do borrão, o céu do inferno. Algumas mudanças normais da idade nosso corpo se limita a aceitar, e não paramos para pensar muito nelas, como por exemplo deixar de ver desenho animado, não comer três pacotes jujuba em dois minutos, ir diminuindo o ritmo no videogame e no álcool, começar e ver TV Senado, etc. De resto vamos envelhecendo sem nos dar muita conta disso, os anos passam e acabamos achando graça da molecada que comete as mesmos erros que cometíamos, que faz as mesmas merdas que fazíamos. Mas de vez em quando vem a saborosa recordação daquela nossa juventude sem muita responsabilidade, dos amigos inconsequentes, dos parentes que se foram e de toda uma geração anos 80 que não era nem fiscalizada por redes sociais, nem rastreada por aparelhos celulares, e que perder uma hora dentro de uma locadora de VHS era considerado um passatempo cultural aceito por nossos pais. Conquanto, ao me reportar ao passado dessa maneira, acabo me estatelando naquela armadilha que o mestre Woody allen nos mostrou o quanto é fácil de cair: no seu magnífico filme Meia-noite em Paris, o roteiro mostra que o personagem vivido por Owen Wilson consegue voltar no tempo quando o relógio bate meia-noite, e descobre que todas as gerações - sem exceção - consideram melhor a geração que antecedeu a sua, e ninguém constata que o momento vivido, ou seja, “o agora”, seja melhor que um passado bastante recente.
 Ainda que não bata nessa mesma tecla, EnquantoSomos Jovens (while we were Young), o novo filme do diretor estadunidense Noah Baumbach, fala um pouco desse saudosismo, dessa vontade de permanecer eternamente jovem; de que nossas idéias e ideais não envelheçam, de que não percamos a capacidade de nos divertir sem nos preocupar com olhares de terceiros e de que não deixemos que a tecnologia nos absorva de tal forma que nossa vida dependa exclusivamente dela.
O roteiro trás um casal na casa dos 40 anos que vivem da arte, da criatividade, pois são documentaristas, tendo ele inclusive um trabalho reconhecido por parte do público. São felizes juntos, tem suas manias, seus amigos da mesma faixa etária e se vestem como a sociedade estabelece. Acontece que eles fazem amizade com um casal de vinte e poucos anos: ele um iniciante no estudo de cinema (também querendo fazer documentários), e ela dona de uma pequena marca de sorvete caseiro. Com pouco tempo de conversa o casal quarentão fica encantado com os jovens, aceita o convite de passar a tarde na casa deles e começa a achar que aquela nova amizade pode modificar a monotonia atual e tornar mais feliz seu modo de viver.


Apesar da primeira hora ser muito boa, da trilha sonora ser um arraso e de não termos o que reclamar das atuações, o filme não consegue se manter tão legal até o fim. A partir das desconfianças de que o casal jovem possa ser uma fraude, à parte legal de toda a nostalgia dos vinis, do VHS e das farras loucas, começa a dar espaço para piadas com menos graças e situações clichês que já estamos acostumados. Contudo, estamos diante de uma boa comédia que faz uma bela crítica daquilo que antes era legal e hoje não é mais (ou do que hoje é legal e ontem era proibido), e de uma sociedade que parece dar mais importância a moldes repetitivos e esperados, à aqueles criativos e surpreendestes.
Nota. 7,0

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Servidão Serva Sérvia




Você pode achar um absurdo que a primeira cena do filme seja a de um rapaz que parece ameaçar a menina, e que ela aparentando medo se deixe bolinar enquanto é filmada pelo celular, câmera essa usada em grande parte do filme para mostrar sexualidades. Mas estamos diante de um filme de amor.
Você pode achar que já deu no saco esses filmes com adolescentes se drogando e abusando do álcool, e que essa rebeldia já foi filmada mundo afora desde a década de cinquenta, e nada mais é novo, ou assusta. Mas dessa vez, estamos diante de um filme de amor.
E se você é conservador, evangélico ou moralista, e não desligar o filme nas primeiras cenas de masturbação, e aguentar calado o sexo oral explícito, ou mesmo o rapaz se masturbando e jorrando esperma na barriga da menina, você vai ver que se trata de um filme de amor.
Então, se você começar a se interessar pelos personagens, e ver que há sentimento envolvido entre jovens que vivem em um país cujo passado recente foi marcado pela guerra civil, e de que toda sua história envolve anexações, separações territoriais, mudanças drásticas de política econômica, e dúvidas quanto a um futuro
de paz, você vai ver que se trata de filme de amor.
E se você não notar isso, e perceber somente um bando de delinqüentes juvenis que fazem mau uso da tecnologia, que não respeitam os próprios parentes doentes, e que não tem nem mesmo amor próprio, você vai ver que CLIP é um filme triste, com a clara intenção de incomodar, e que mostra os problemas da Sérvia por um ângulo perturbador, imoral, mascarado por pornografia e erotismo vulgar.  E de caos a caos, de cena a cena, o filme ainda vai tentar te passar, mesmo que na sua última cena, que estamos sim diante de um filme de amor.

Nota, 70

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Novos Ares, Consequências Incertas



Toda pessoa casada – ou que namore há bastante tempo – quando sente o relacionamento esfriar, ou mais especificamente, quando percebe que a “cama está ficando morna” e não quer trair o parceiro, senta pra conversar. Eis uma atitude honesta: reconhecer o declínio e tentar mudanças de melhoria. Do diálogo entre os pombinhos que caíram na mesmice podem advir muitas surpresas, ideias e tentativas de solução, e a mais comum de todas é a abertura a novas experiências sexuais, outros fetiches; partilhar fantasias que até então ficavam presas em um compartimento seguro do cérebro e que só eram liberadas nas solitárias masturbações no chuveiro ou em frente a um monitor de computador. Dependendo da receptividade das indiretas jogadas ao acaso, a primeira ideia que vem, principalmente dos homens, é por mais alguém na relação,e de preferência uma mulher mais jovem, bonita e que toparia participar de um ménage à trois sem frescuras. As consequências disso podem ser a mais variadas, para o bem ou para o mal do casal, ou para o bem somente de uma ou duas das três partes envolvidas. E acho que foi isso que o diretor de O Uivo da Gaita quis dizer no seu filme.

 Parece que o jovem diretor Bruno Safadi, apesar do seu sobrenome, não tinha em mente somente safadeza ao realizar essa película de um pouco mais de uma hora de duração (um dos méritos do filme é ser pequeno). No roteiro, um casal que parece  saturado da rotina,  querendo mudanças paisagísticas, amorosas e sexuais. Tudo isso é explicado com imagens, tomadas longas e pouquíssimos diálogos, e a não linearidade dos acontecimentos deixa claro que a proposta foi bem aceita, a chegada de uma outra mulher atiça a sexualidade do casal. Contudo, quando um presente é dado para duas pessoas, uma delas acaba gostando mais que a outra, e isso pode trazer a dor, principalmente se o presente também tem sentimentos. A fotografia é bonita, mas o filme se arrasta por ela, e a câmera para por tempo exagerado em uma árvore, ou no mar, ou em qualquer paisagem que lembre a tranqüilidade e a sensação de bem estar que a natureza transmite. E a história não tem um ponto de apoio para que esse tipo de riqueza visual dê seguimento aos acontecimentos e as cenas eróticas. O longa se vale muita mais da beleza e do talento das atrizes do que de qualquer outro artifício pra manter o público até o final da exibição. Poderia ser um curta metragem de 20 minutos, no máximo.
Nota 5,0

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Amor Suicída



A revolução francesa aconteceu, rolaram cabeças em um país bem próximo, e o povo clama por direitos sociais. Os lemas liberdade, igualdade e fraternidade são levantados, são impostos, estão em expansão, e o clamor por igualdade é a grande pedra no sapato da alta sociedade no começo do século XIX. É esse o ambiente que o fio condutor de AmourFou percorre e entra na intimidade da alta sociedade alemã e no seu medo de perder os privilégios conquistados através da exploração da classe pobre: dos altos impostos obrigatórios somente para quem tem pouco poder aquisitivo, dos baixos salários para os que mais trabalham e de toda uma repressão econômica e social que contrastava no conforto de poucos e na miséria de muitos. Agora os agricultores começam a não pertencer mais ao senhor feudal, começam a se negar a pagar altos impostos e a se mobilizar contra as injustiças de uma classe que até então se julgava intocável.
A diretora húngara Jessica Hausner usa como pano de fundo esse cenário em ruínas para contar a história real do poeta Heinrich von Kleist, que começa a perceber as mudanças repentinas na sociedade e perde a vontade de viver, e a partir daí tenta convencer a mulher que ama a se suicidar junto com ele; e diante da negativa da mulher amada, que também é sua prima, o poeta busca alternativa na fragilidade de outra uma mulher, casada, mas que tem uma doença que segundo os médicos é incurável e fatal.


Amour Fou faz uma leitura interessante do egoísmo, tanto econômico quanto sentimental. Mostra o amor sem paixão, foca na perspectiva de pessoas em manter as aparências. Contudo, para que isso seja perceptível, o filme se concentra mais na amante de suicídio do que no próprio poeta. Mostra o lado humano da mulher, antes feliz como esposa e mãe, e agora atacada por uma doença não diagnosticada, que, ou dizem ser fatal ou simplesmente atenuam como “coisas de mulher”, e acaba assim fragilizada e comovida com a estranha proposta do poeta, de quem também é fã.

Nota, 85

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Difícil Ressocialização



Penitenciárias são escolas do crime, quem cumpre pena pior sai. Lá se mesclam delitos de diferentes graus: facções dominam alas, celas e andares, fazendo com que aqueles que antes não tinham vínculo com o tráfico ou com maiores crimes, sejam obrigados a cooperar, a depender de favores e a se unir a algum grupo criminosos que controla a criminalidade dentro e fora da cadeia. E ainda há aqueles que defendam a redução da maioridade penal, querem colocar nossos jovens em um covil de marginalidade cuja visão de futuro somente será através do crime, da violência. Mas isso é assunto para uma outra postagem, muito mais abrangente e detalhada, e vou esperar que o Senado vete o texto da redução, que só passou na Câmara pela manobra política do peçonhento Eduardo Cunha, para me manifestar melhor sobre o assunto. Vim falar de cinema grego.

De dia ele é confeiteiro em uma padaria, de noite é assassino profissional. Foi preso por homicídio, supostamente qualificado: assassinou com muita violência àqueles que atentaram contra a honra de sua namorada. E não se sabe mais nada sobre os verdadeiros acontecimentos, sobre as exatas motivações que o levaram a um crime tão bárbaro, somente que, enquanto preso, passou a dever favores para o líder de uma das facções que controlam a vida no presídio, e que lá salvou sua vida e ajudou para que seu direito à liberdade se concretizasse.
Stratos conte essa história fictícia, mas que poderia ser real, baseada na vida de algum ex-presidiário que realmente sonha em sair de um complexo penitenciário e voltar a ter uma vida normal, a trabalhar dignamente para recuperar sua dignidade e sua moral perante a sociedade. Todavia, a vida pregressa dentro de uma unidade prisional o fez depender de gente que não gostaríamos de contar, e só isso já basta para nunca mais encontrarmos o caminho da vida íntegra.
Com uma atuação soberba de Vangelis Mouriki como matador profissional e um roteiro muito bem escrito, Stratos foca na criminalidade para mostrar uma Grécia em crise, um capitalismo canibal e inescrupuloso que devora as entranhas de seu povo.

Nota 8,0

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Mortensen + Alonso = Cinema de Qualidade



O cinema argentino me surpreende a cada dia, a cada filme. Sinto-me obrigado a ficar sintonizado o máximo que posso com as novas produções e os novos nomes que saem do país vizinho. Jauja é uma produção que envolve vários países, inclusive o Brasil, mas é sob as mãos criativas do cineasta Hermano Lisandro Alonso que o longa é embalado, e suas opções e parcerias são no mínimo curiosas: Um pop Star pra ser o principal nome do filme - Viggo Mortensen (que também assina a trilha sonora), um diretor de fotografia finlandês - Timo Salminem, e um roteiro originalíssimo vindo da literatura fantástica Argentina onde de imediato não sintonizamos data nem local dos acontecimentos em questão.

 O filme começa com Mortensen conversando com a filha sobre coisas cotidianas, ambos encostados um ao outro num cenário lindíssimo que indica ser a Patagônia. Antes disso, o filme se abre com um texto, explicando que Jauja é um lugar mitológico que as pessoas acreditam existir, mas todos que o procuram se perdem pelo caminho e não mais retornam.
A partir daí o cineasta Argentino não nos entrega mais nada de bandeja, e o desenvolvimento do longa se concentra basicamente no pai à procura da filha que foge com um de seus soldados por um deserto desconhecido e cheio de mistérios.
A história parece simples, pode lembrar até um faroeste com um pano de fundo um pouco diferente, todavia, da metade pra frente, vemos que estamos diante de uma obra complexa onde sonho, realidade, passado, presente e futuro aparecem meio que combinados, entrelaçados por mundos com realidades diferentes. E o resultado é bonito, enigmático e surreal. Mortensen está perfeito na pele de um Capitão que bravamente sai por um mundo desconhecido à procura da filha, e acaba vendo que o seu desconhecimento vai muito além da geografia local.

Nota 9,0

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Tempos de Adolescente



Em 2010 James Franco publicou um livro semi-autobiográfico cujo tema eram as desventuras de um grupo de amigos do colegial que passavam a maior do tempo fumando maconha, gastando o dinheiro dos pais e se alcoolizando em festinhas classe média alta californiana. Três anos depois ele resolveu levar o trabalho para as telas de cinema, ajudou na produção e deu a direção para minha xará Giancarla Coppola, neta do Mestre Francis Ford Coppola, e sobrinha da grande cineasta Sofia Coppola.

O que a jovem diretora tinha em mente (com apenas 28 anos de idade) era fazer um trabalho alternativo, sem grades pretensões ou recursos. Reuniu um grupo de atores novos e contou com a participação de Franco e Val Kilmer pra dar um peso no elenco. E o resultado não é ruim, Palo Alto se foca exclusivamente na realidade triste e monótona de um momento na vida, ou melhor, na idade, em que pessoas não têm outro interesse além de ficar chapado e querer aparecer. É nesse pano de fundo regado a drogas e álcool que  Gia Coppola se adentra nos sentimentos, usa como núcleo dois personagens que se gostam para através deles traçar o mosaico dos demais adolescentes, fazendo um leitura um bocado desleixada sobre solidão, isolamento e a dificuldade de comunicação com a família e os educadores. O roteiro é bem escrito, chega a dar dó tanto da menina carente que por suas escolhas acaba taxada de puta, quanto das dúvidas da aluna correta que acaba se confundindo sobre sentimentos que afloram cedo demais.
A nova Coppolinha consegue fazer seu dever de casa, o filme tem uma boa fotografia, uma trilha sonora que encaixa e um desenvolvimento coerente, malicioso, azedinho-doce.

Nota, 7,5

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Fugindo dos Nossos Fantasmas



Não sei se eu que estou exigente demais ou se os filmes de terror de hoje não estão mais tão assustadores como os de antigamente. Pode ser também a tendência da idade ir atenuando nosso sensor de medo e nada mais assustar como antes fazia. Só sei que  hoje em dia é raro aparecer alguma coisa que preste do gênero, as refilmagens são ruins, os enredos clichês e tudo parece um enlatado de imitações sem inovações. Então
quando vejo algum filme de terror atual e bom, me da uma vontade danada de gritar bem alto: ATÉ QUE ENFIM PORRA!

Foi o que aconteceu com “Corrente do Mal (It Follows)”, filme feito com baixo orçamento, atores pouco conhecidos e uma boa idéia na cabeça. Assim como a AIDS, aqui o Mal vem através da penetração. Só por essa premissa o filme já trás uma carga de questionamento ético que faz embalar um roteiro cheio de suspense e escolhas morais.
O longa se inicia com uma garota amedrontada fugindo pelas ruas de sua pequena cidade, correndo sem destino, e não solicitando ajuda de parentes, vizinhos ou amigos. Na cena seguinte ela já aparece brutalmente assassinada na praia. Depois entra o famoso clichê de todos filmes de horror adolescente, um casal transando no interior de um carro em uma rua escura e deserta, todavia aqui a cena pertinente, pois vai nos ajudar a compreender a trama principal do filme: alguém tem o Mal e só deixa de ter se o passar para frente, através do sexo. Ao transar você para de ser perseguido por espíritos assassinos e passa pra aquele que transou. A metáfora ao dilema moral de contaminar ou não os pares, aquele que gosta ou que tem tesão por você, confere ao filme uma carga a mais que se completa com um bom suspense e com uma boa trilha sonora, e é claro, como todo bom terror, um final que pede uma continuidade.
Nota 8,5

quarta-feira, 4 de março de 2015

Prêmio Nossa Biboca de Cinema 2015 (by Gian)



Na verdade eram pra ser dez filmes escolhidos, mas não deu. 2014 foi um ano muito bom pro cinema mundial, e na verdade eu poderia listar até 50 grandes nomes aqui, contudo, depois de muito sacrifício e sem querer deixar nada de fora, mas já deixando, elenco aqui com muita honra os quinze melhores filmes do ano passado. E o cobiçado prêmio “nossa Biboca de Cinema” de 2014 vai para:

1 - “Miss Violence” de Alexandros Avranas (Grécia) – É um filme pesado, confesso! Talvez o mais forte dessa lista, apesar de outros também fazerem frente a ele neste quesito. Todavia, o que mais me impressionou foi a habilidade do diretor em nos mostrar o drama de uma família massacrada por um pai/avô sádico e cruel que se aproveita de sua posição de “homem da casa” para fazer o mal como forma de prazer e poder. A cena que abre o filme é a do suicídio de uma menina de dez anos no seu aniversário.O sorriso nos lábios na hora do salto para a morte é o significado da liberdade de uma vida sem razão, que seus irmãos enfrentam e ainda vão enfrentar em diferentes estágios,  a cada dia, cada vez que se tornam mais velhos, tudo programado ao seu tempo, na escolha do chefe da casa. Uma família, que pelo fato de assim ser acaba encurralada num beco de difícil fuga, em que para outras famílias são pessoas normais, mas que se submetem a um monstro que com o passar dos anos conseguiu destruir qualquer tentativa de reação ou revolta. Usou do medo, da força, da covardia. E aqui estamos nós, diante de cenas tão revoltantes, mas não irreais. Onde ser do mesmo sangue pode significar vida pior que a de animal, sob a proteção de quatro paredes e um chefe de família – Nota 10.

2- “Carvão Negro, Gelo Fino” de Diao Yi’nan (China)
3- “Força Maior” de Ruben Östlund (Suécia)
4- “Leviathan” de Andrey Zvyagintsev (Rússia)
5- “Relatos Selvagens” de Damián Szifron (Argentina)
6- “O Médico Alemão” de Lúcia Puenzo (Argentina)
7- “Winter Sleep”de Nuri Bilge Ceylan (Turquia)
8- “7 Caixas” de Juan Carlos Maneglia (Paraguai)
9- “Tangerines” de Zaza Urushadze (Geórgia)
10- “O Grande Hotel Budapeste” de Wes Anderson (Reino Unido)
11- “Blue Ruin” de Jeremy Saulnier (EUA)
12- “Mil Vezes Boa Noite” de Erik Poppe ( Noruega)
13- “O Abutre” de Dan Gilroy (EUA)
14- “Acima das Nuvens” de Olivier Assayas (França)
15-“Yves Saint Laurent de Jalil Lespert ( França)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Justiças e injustiças do Oscar (by Fabi)

Melhor filme - Injustiça
Gostei de Birdman, mas BoyHood merecia ganhar.

Melhor Ator - Injustiça
Michael Keaton estava deslumbrante, saindo do ostracismo de maneira singular, coisa que só grandes diretores conseguem fazer pelo ator, assim como Tarantino fez com John Travolta em Pulp Fiction..

Melhor filme estrangeiro - Injustiça
Apesar de ter gostado de Tangerines, o prêmio deveria ir para Relatos Selvagens. O que prova que nossos Hermanos continuam anos-luz em nossa frente em se tratando de sétima arte.

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Justiças:

Inãrritu - I love you! Mas confesso que lá no fundo, torci para o Wess Anderson.

Juliane Moore - Diva. Já estava passando da hora.

Patricia Arquette - Digna em seu papel , como poucas coadjuvantes que já vi em cena.

J.K. Simmons - Finalmente teve seu talento reconhecido. É um ator fantástico, já desde os tempos de Oz.


A cada ano que passa, me convenço que o Oscar é um engodo.
Vou citar a maior e mais triste injustiça deste ano: Selma. Filme lindo, bem filmado, bem editado, trilha sonora que arrepia, belíssimas atuações, mas acho que não para os padrões "hollywoodianos".
Uma pena.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Biboca, Pipoca e Oscar (By Gian)



É hoje que Hollywood escolhe os melhores de 2014 na premiação da sétima arte mais popular do mundo. A importância do Oscar para o cinema é enorme, consagra diretores, atores, técnicos, estúdios, músicos e tudo mais que você possa imaginar e que tenha algum tipo de relação com o produto final: O filme. Longe de ser a mais justa, é a competição que mais atrai olhares, críticas e dinheiro. O cinema hoje está em festa. O Brasil não está representado em nenhuma categoria, mas nossos hermanos estão firmes e fortes, e com grandes chances de levar o prêmio de melhor filme na categoria de língua estrangeira por “Relatos Selvagens”, longa que ainda não assisti mas que de semana que vem não passa!

Na verdade, eu sempre gosto de fazer antes do Oscar a premiação desse blog, ou seja, de eleger os dez melhores filmes do ano no nosso já tradicional prêmio “Nossa Biboca”. Gosto de postar antes do Oscar que é pra neguinho não me acusar de estar sendo manipulado ou de copiar alguns dos premiados de Hollywood. Dessa vez não terei esse tipo de preocupação, pois já assisti a quase todos os concorrentes das principais categorias, e com exceção de “O Grande Hotel Budapeste” nenhum outro se qualificou a entrar na minha lista dos 10 melhores. Entre os candidatos a filme estrangeiro sim, tenho dois na minha lista que também concorrem ao Oscar, mas como me falta ainda ver pelo menos uns cinco filmes importantes, quero deixar a premiação do “biboca” para o finalzinho do mês. Nada de deixar um ótimo filme de fora não é?  Vocês esperam não é?
Mas voltemos ao Oscar, minha torcida é pelo “Grande Hotel Budapeste” e pelo seu diretor, Wes Anderson, que sou fã de carteirinha há muitos anos. É um filme diferente dos demais, porém com um roteiro originalíssimo, uma fotografia impressionante e um elenco afiadíssimo, ou seja, uma aula de cinema. Os outros, na grande maioria que concorrem ao prêmio principal, são biografias, entre eles destaque para os ótimos “O Jogo de Imitação”, e “Teoria de Tudo”, esse com cara de Oscar mesmo, e parece que foi idealizado justamente para ganhar o de melhor filme. Birdman pode atrapalhar a festa, amo o Iñarrito, mas dessa vez é o mais fraco dentre os candidatos, mas será justo se a equipe técnica levar alguns prêmios e Michael Keaton ficar com o de ator. Em roteiro original são dois que merecem muito, “Hotel Budabeste” como já disse, e “Abutre”, um ótimo filme que lembra os melhores momentos do cinema estadunidenses dos anos 80, e que não sei porque foi quase que totalmente esquecido, só entrando como concorrente nessa categoria, certamente o ator  Jake Gyllenhaal deveria estar na briga e como um dos favoritos. Não vou me manifestar sobre atores e atrizes e seus coadjuvantes, pois não vi alguns dos que estão na lista. Então, boa diversão na noite de domingo, e que os “melhores” vençam.   

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Características da Emoção (by Gian)



A vida em sua forma mais pura, a natureza no comando das ações. Em “OSegredo das Águas, a diretora japonesa Naomi Kawase trás a leveza de uma pequena comunidade oriental banhada pelo mar, e a descoberta do amor por um casal de adolescentes que lidam com problemas sentimentais dentro de casa. Ela, com a notícia da proximidade da morte da mãe, tenta viver cada dia como se único fosse. Ele, que habita com a mãe recém-divorciada que recebe mais de um namorado dentro de casa, lida com o ciúme e o ódio mesclados com amor. Os sentimentos se inflamam quando um corpo é encontrado na praia, e a questão morte é se evidencia ainda mais na realidade dos personagens.
O filme é de uma leveza característica da filosofia oriental, com uma paz visual relaxante e uma belíssima trilha sonora. A união de uma família embaixo de uma árvore na certeza de que aquele momento de felicidade será o último. A dor e a culpa de um filho depois de uma injusta briga com a mãe. A fuga na passagem de um tufão. E a sabedoria oriental de um velho ancião que percebe que sua maior função agora é não dar trabalho aos mais jovens e que crê que até Deuses morrem.
Sem querer se aprofundar em nenhum tema polêmico e mostrando a simplicidade de pessoas em suas vidas normais, Naomi Kawase usa da inquietude juvenil para nos dar uma bonita lição sobre família, amor, maturidade morte e sexo. Um pouco de paz interior na sétima arte.

Nota 8,0

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cínico e Calculista (by Gian)



Não sei se é um defeito ou uma qualidade, mas o fato é que Iñárrito é transparente demais em seus filmes, e seu olhar pode ser de uma doçura angelical ou de uma frieza cruel, dependendo do tema ou dos personagens que passam por suas mãos. Não é difícil notar em seus filmes esse vínculo emocional com seus personagens, ele os cria com o propósito de ser seu único dono, e como um Deus único os pune, perdoa ou  absolve, não sem antes dissecar minuciosamente seus sentimentos, defeitos, erros e temores. Em "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)", Iñárrito é e faz isso tudo, mas em vez da frieza costumeira ele opta pelo cinismo cruel, e sua transparência pode ser até questionada pela irrealidade das passagens surreais em que Riggan Thomson  (Michael Keaton) se esconde por trás do herói que dá nome ao filme, mas mesmo aí nos vemos diante de uma obra com críticas pesadas e diretas, e dessa vez o diretor mexicano não extrai suas premissas de nenhum bando marginalizado em uma cidade subdesenvolvida nem de estrangeiros ilegais tentando a sorte em um mundo mais atrativo, ele sobe às camadas sociais invejadas e cultivadas pelo público comum e sem piedade desconstrói ao mesmo tempo broadway e hollywood. E não para por aí, ao colocar alguém que interpretou Batman para o papel de um ator que está praticamente morto para o cinema e que só vai fazer teatro para se reencontrar com público e crítica para alavancar carreira e fazer o quarto filme da saga do Birdman, Iñárrito além de dar nomes aos bois expõe o lado escuro do estrelato e do poder irresistível do dinheiro, que mais faz mover a indústria cinematográfica para o lado da ambição financeira do que para o lado artístico e talentoso. E esses propósitos ficam claros na construção das personagens, somente o de Michael Keaton é que foi trabalhado na totalidade, a ponto de sabermos seus medos e frustrações, os outros são os coadjuvantes que fazem parte da humilhação, colaborando, inspecionando, opinando ou acompanhando as ambições do “herói” da história. O diretor atinge o objetivo que perseguiu, ele é bom nisso, e através de uma fotografia maravilhosa e de uma edição espetacular ele percorre com maestria os corredores e adjacências de um teatro e assim pinta um mundo cercado de cobiça, inveja, intriga e interesse. Mas o filme é bom? Não sei dizer, a parte técnica sim, sem dúvida, os atores também estão impecáveis, principalmente Keaton. Mas o todo, a união dos fatores, me deixou com uma sensação estranha de confinamento, de mal estar, de vontade de que acabe logo para eu fazer outra coisa que não me perturbe a cabeça. Iñárrito criou um mundo de personagens vis que no fim das contas acabam se dando bem porque pertencem a um mundo onde os valores estão nivelados cada vez mais por baixo, visto por um publico brutalizado que aplaude notícias de tablóides de fofoca e esperam pelo próximo enlatado mais curtido pelas redes sociais. Não sei que gosto de ver isso.
Nota 7,0

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Sob o Cuidado Humano (by Gian)



O que pensam os soldados, os combatentes do front de uma guerra a respeito da mesma? Quais são seus ideais? Por que estão ali? Patriotismo, defesa do território pelo qual se acha devido? Dinheiro no final das contas? Lavagem cerebral das forças militares? O que é uma guerra?

O filme é estoniano e tem um nome curioso “Tangerinas”. É de guerra, mas não se passa em um campo de batalha, não tem canhões ou tanques se explodindo. O palco principal é um vilarejo quase deserto, que só não está completamente vazio porque um senhor decidiu ficar em casa pelas lembrança que ali se encontram, pela nostalgia de um recente passado feliz, onde atualmente a guerra local fez com que todos os moradores se mudassem. Seu único companheiro é o vizinho, cultivador de tangerinas que apesar do amor pelo trabalho que exerce também está de mudança, cansado de não ter comprador para suas colheitas ou pessoas para um convívio normal. A vida dos dois sofre uma repentina mudança quando dois carros militares em perseguição e tiroteio sofrem um acidente bem em frente à suas residências, e dois feridos, de nações diferentes (portanto inimigos) são resgatados e cuidados pelos moradores.
Com um roteiro simples; ora cômico, ora tenso; o filme nos leva pra dentro da casa de um senhor tranqüilo, que leva uma vida de paz e sossego, até que salva a vida de dois homens que quase se mataram por uma causa que não conhecem bem. O ódio irracional de um pelo outro e a cordialidade de um desconhecido, as palavras sábias de quem vivenciou outras batalhas, as razões e as injustiças de uma guerra onde à vida perde o valor por disputas de poder em instâncias inacessíveis para a maioria; tudo isso é posto em mesa de modo tão aberto, que torna esse filme uma das grandes surpresas do ano. Simplesmente imperdível.
  Nota 9,0

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Isolamento Interior (by Gian)



Pelo segundo ano consecutivo Cannes entrega seu principal prêmio para um filme com mais de três horas de duração. Em 2013 o sensacional “Azul é a cor mais quente” levou o cobiçado prêmio como um caliente filme LGBT com longas e belas tomadas de sexo explícito entre duas mulheres, ótimas atrizes por sinal. Dessa vez os longos e arrebatadores diálogos de “Winter Sleep” parecem ser os fatores que mais seduziram os críticos de Cannes. 

A duração se justifica pela forma como o diretor nos apresenta as personagens. Uma pedra é jogada na vidraça de uma caminhonete em movimento, quase causando um sério acidente, o homem no banco carona corre e pega o menino que atirou a pedra. A partir daí as histórias de diferentes pessoas de um vilarejo começam a se cruzar, tendo como personagem principal Aydin, dono de um hotel e figura respeitadíssima na região, já que está no topo das classes sociais e cujas atitudes acabam tendo reflexo na vida dos demais moradores, já que a maioria é inquilino dele, que também é proprietário de grande parte das residências locais.
Sem querer me adentrar nas questões principais que envolvem o drama, o filme foca nos problemas emocionais de Aydin, um ex-ator que agora tem uma vida confortável nas montanhas e dirige um hotel para turistas ricos. A necessidade de manter as aparências em ordem o leva a tentar restabelecer um fracassado casamento com a esposa jovem e bonita, cobiçada por um grupo de professores que tenta recursos para construir uma nova escola na região.
Winter Sleep é um filme em que as conversas íntimas e reservadas entre as pessoas mostram o que elas pensam quando não estão se expondo, quando não estão sendo ouvidas por terceiros. Lembrou-me bastante alguns dos filmes do diretor sueco Ingmar Bergman, em que os diálogos despem o caráter do indivíduo. A relação marido e mulher, irmã e irmão, proprietário e inquilino, rico e pobre, é desenvolvida sob o ângulo público e privado, e a diferença de trato pode ser considerada como a essência do longa. A fotografia é magnífica, feita nas regiões montanhosas da capadócia, inspirada em três contos de Tchekhov em que o diretor turco Nuri Bilge Ceylan parece ter ficado tão hipnotizado que omitiu pra todo mundo, inclusive para esposa, que já havia terminado suas filmagens pra ficar curtindo mais um pouquinho o visual divino do lugar, e que podemos desfrutar durante três horas nesse magnífico drama vencedor da Palma de Ouro em Cannes!
Nota 9,0

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Ahhhh Ridley...! (by Fabi)

Eu sou uma super fã de filmes em 3D. Me acomodo na poltrona, ponho o óculos, me arrepio, me emociono e tudo, pq eu considero uma das maiores inovações já existentes em termos de 7ª arte. E eu criei tantas expectativas com Êxodo - Deuses e Reis, mas tanta, que eu cheguei ao cinema em cima da hora da sessão e fui capaz de abandonar meu amigo que chegou depois e , consequentemente, ficou sem ingresso. Corri por todo o saguão, subi as escadas rolantes correndo e finalmente cheguei. Ansiosa, mãos suando, coração acelerado (só entende quem gosta).
Parecia uma criança quando o filme começou: sorrindo e lacrimejando comecei a ver retratada na tela, uma das histórias bíblicas mais lindas que conheço. Detalhe: conheço e acredito.
Mas o que tinha tudo para ser o Ben-Hur dessa década, foi aos poucos, se tornando um filme cansativo, com uma belíssima fotografia, mas mal editado e o principal: sem ter como parâmetro a Bíblia, de onde se origina a história. Fatos que não constam na Bíblia, algumas inovações, pq como um mestre do cinema, ele tem esse direito, mas não foi fiel. E fidelidade à um best seller é tudo!
Aronofsky fez pior com Noé, mas você é o cara, Ridley!!!!!!!!


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

trinta e poucos anos ou mais (by Gian)



Aniversariar no sétimo dia do ano é uma coisa estranha, o reflexo das festas de natal e reveillon ainda está pululando no sangue da gente, as pessoas ainda estão em ritmos de feriado prolongado e o mundo parece que não acordou para dar alguma importância para a sua data comemorativa. Porém o mais estranho é entrar na quarta década de vida se sentido ainda na segunda. O corpo vai envelhecendo, vai mostrando sinais de mudanças ao impor certos limites, mas a mente insiste em rejuvenescer, o tesão pela vida parece maior, a vontade de saber parece que cresceu como aquela que crianças recém apresentadas ao mundo tem na fase dos porquês. Uma estranha paz parece querer espaço em locais do meu corpo onde até então a morada da agitação era bem vista pela vizinhança, e o mais extraordinário nisso é que a mente consegue ajustar essas transformações de forma a sobrar espaço, tempo e vontade para outras coisas que eram mais importantes em outras épocas e que agora podem ser usufruídas de forma mais prazerosa quando desejadas. Ser jovem é saber envelhecer, acho que essa frase do menestrel do Brasil só é entendida à medida que passamos a ter mais controle sobre o nosso corpo do que vice e versa. Recomeçar é sempre importante quando temos o conhecimento e a sabedoria de saber o que deve ser deixado pra trás e o que deve seguir conosco, mesmo que o excesso de peso possa causar algum incomodo durante a nova viagem. Temos sempre que avaliar bem o peso da balança antes de decidir pelo descarte. Sigamos pela estrada, com um olho no horizonte e outro no retrovisor, curtindo as paisagens e aprendendo com acidentes. E se a tempestade tentar atrapalhar o percurso, nada melhor que se jogar na chuva e se molhar com as surpresas que nos é apresentada. Estressar-me nessa idade que entro? Dispenso. Cabelos brancos só pela a idade. Que 2015 traga bons 40 anos de paz, e que outros 40 possam vir com  saúde e sabedoria.  É o que me desejo no dia de hoje. Sete do um de dois mil e quinze. 
Eu tenho um coração de mãe.