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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Difícil Ressocialização



Penitenciárias são escolas do crime, quem cumpre pena pior sai. Lá se mesclam delitos de diferentes graus: facções dominam alas, celas e andares, fazendo com que aqueles que antes não tinham vínculo com o tráfico ou com maiores crimes, sejam obrigados a cooperar, a depender de favores e a se unir a algum grupo criminosos que controla a criminalidade dentro e fora da cadeia. E ainda há aqueles que defendam a redução da maioridade penal, querem colocar nossos jovens em um covil de marginalidade cuja visão de futuro somente será através do crime, da violência. Mas isso é assunto para uma outra postagem, muito mais abrangente e detalhada, e vou esperar que o Senado vete o texto da redução, que só passou na Câmara pela manobra política do peçonhento Eduardo Cunha, para me manifestar melhor sobre o assunto. Vim falar de cinema grego.

De dia ele é confeiteiro em uma padaria, de noite é assassino profissional. Foi preso por homicídio, supostamente qualificado: assassinou com muita violência àqueles que atentaram contra a honra de sua namorada. E não se sabe mais nada sobre os verdadeiros acontecimentos, sobre as exatas motivações que o levaram a um crime tão bárbaro, somente que, enquanto preso, passou a dever favores para o líder de uma das facções que controlam a vida no presídio, e que lá salvou sua vida e ajudou para que seu direito à liberdade se concretizasse.
Stratos conte essa história fictícia, mas que poderia ser real, baseada na vida de algum ex-presidiário que realmente sonha em sair de um complexo penitenciário e voltar a ter uma vida normal, a trabalhar dignamente para recuperar sua dignidade e sua moral perante a sociedade. Todavia, a vida pregressa dentro de uma unidade prisional o fez depender de gente que não gostaríamos de contar, e só isso já basta para nunca mais encontrarmos o caminho da vida íntegra.
Com uma atuação soberba de Vangelis Mouriki como matador profissional e um roteiro muito bem escrito, Stratos foca na criminalidade para mostrar uma Grécia em crise, um capitalismo canibal e inescrupuloso que devora as entranhas de seu povo.

Nota 8,0

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Mortensen + Alonso = Cinema de Qualidade



O cinema argentino me surpreende a cada dia, a cada filme. Sinto-me obrigado a ficar sintonizado o máximo que posso com as novas produções e os novos nomes que saem do país vizinho. Jauja é uma produção que envolve vários países, inclusive o Brasil, mas é sob as mãos criativas do cineasta Hermano Lisandro Alonso que o longa é embalado, e suas opções e parcerias são no mínimo curiosas: Um pop Star pra ser o principal nome do filme - Viggo Mortensen (que também assina a trilha sonora), um diretor de fotografia finlandês - Timo Salminem, e um roteiro originalíssimo vindo da literatura fantástica Argentina onde de imediato não sintonizamos data nem local dos acontecimentos em questão.

 O filme começa com Mortensen conversando com a filha sobre coisas cotidianas, ambos encostados um ao outro num cenário lindíssimo que indica ser a Patagônia. Antes disso, o filme se abre com um texto, explicando que Jauja é um lugar mitológico que as pessoas acreditam existir, mas todos que o procuram se perdem pelo caminho e não mais retornam.
A partir daí o cineasta Argentino não nos entrega mais nada de bandeja, e o desenvolvimento do longa se concentra basicamente no pai à procura da filha que foge com um de seus soldados por um deserto desconhecido e cheio de mistérios.
A história parece simples, pode lembrar até um faroeste com um pano de fundo um pouco diferente, todavia, da metade pra frente, vemos que estamos diante de uma obra complexa onde sonho, realidade, passado, presente e futuro aparecem meio que combinados, entrelaçados por mundos com realidades diferentes. E o resultado é bonito, enigmático e surreal. Mortensen está perfeito na pele de um Capitão que bravamente sai por um mundo desconhecido à procura da filha, e acaba vendo que o seu desconhecimento vai muito além da geografia local.

Nota 9,0

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Tempos de Adolescente



Em 2010 James Franco publicou um livro semi-autobiográfico cujo tema eram as desventuras de um grupo de amigos do colegial que passavam a maior do tempo fumando maconha, gastando o dinheiro dos pais e se alcoolizando em festinhas classe média alta californiana. Três anos depois ele resolveu levar o trabalho para as telas de cinema, ajudou na produção e deu a direção para minha xará Giancarla Coppola, neta do Mestre Francis Ford Coppola, e sobrinha da grande cineasta Sofia Coppola.

O que a jovem diretora tinha em mente (com apenas 28 anos de idade) era fazer um trabalho alternativo, sem grades pretensões ou recursos. Reuniu um grupo de atores novos e contou com a participação de Franco e Val Kilmer pra dar um peso no elenco. E o resultado não é ruim, Palo Alto se foca exclusivamente na realidade triste e monótona de um momento na vida, ou melhor, na idade, em que pessoas não têm outro interesse além de ficar chapado e querer aparecer. É nesse pano de fundo regado a drogas e álcool que  Gia Coppola se adentra nos sentimentos, usa como núcleo dois personagens que se gostam para através deles traçar o mosaico dos demais adolescentes, fazendo um leitura um bocado desleixada sobre solidão, isolamento e a dificuldade de comunicação com a família e os educadores. O roteiro é bem escrito, chega a dar dó tanto da menina carente que por suas escolhas acaba taxada de puta, quanto das dúvidas da aluna correta que acaba se confundindo sobre sentimentos que afloram cedo demais.
A nova Coppolinha consegue fazer seu dever de casa, o filme tem uma boa fotografia, uma trilha sonora que encaixa e um desenvolvimento coerente, malicioso, azedinho-doce.

Nota, 7,5

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Fugindo dos Nossos Fantasmas



Não sei se eu que estou exigente demais ou se os filmes de terror de hoje não estão mais tão assustadores como os de antigamente. Pode ser também a tendência da idade ir atenuando nosso sensor de medo e nada mais assustar como antes fazia. Só sei que  hoje em dia é raro aparecer alguma coisa que preste do gênero, as refilmagens são ruins, os enredos clichês e tudo parece um enlatado de imitações sem inovações. Então
quando vejo algum filme de terror atual e bom, me da uma vontade danada de gritar bem alto: ATÉ QUE ENFIM PORRA!

Foi o que aconteceu com “Corrente do Mal (It Follows)”, filme feito com baixo orçamento, atores pouco conhecidos e uma boa idéia na cabeça. Assim como a AIDS, aqui o Mal vem através da penetração. Só por essa premissa o filme já trás uma carga de questionamento ético que faz embalar um roteiro cheio de suspense e escolhas morais.
O longa se inicia com uma garota amedrontada fugindo pelas ruas de sua pequena cidade, correndo sem destino, e não solicitando ajuda de parentes, vizinhos ou amigos. Na cena seguinte ela já aparece brutalmente assassinada na praia. Depois entra o famoso clichê de todos filmes de horror adolescente, um casal transando no interior de um carro em uma rua escura e deserta, todavia aqui a cena pertinente, pois vai nos ajudar a compreender a trama principal do filme: alguém tem o Mal e só deixa de ter se o passar para frente, através do sexo. Ao transar você para de ser perseguido por espíritos assassinos e passa pra aquele que transou. A metáfora ao dilema moral de contaminar ou não os pares, aquele que gosta ou que tem tesão por você, confere ao filme uma carga a mais que se completa com um bom suspense e com uma boa trilha sonora, e é claro, como todo bom terror, um final que pede uma continuidade.
Nota 8,5