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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cínico e Calculista (by Gian)



Não sei se é um defeito ou uma qualidade, mas o fato é que Iñárrito é transparente demais em seus filmes, e seu olhar pode ser de uma doçura angelical ou de uma frieza cruel, dependendo do tema ou dos personagens que passam por suas mãos. Não é difícil notar em seus filmes esse vínculo emocional com seus personagens, ele os cria com o propósito de ser seu único dono, e como um Deus único os pune, perdoa ou  absolve, não sem antes dissecar minuciosamente seus sentimentos, defeitos, erros e temores. Em "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)", Iñárrito é e faz isso tudo, mas em vez da frieza costumeira ele opta pelo cinismo cruel, e sua transparência pode ser até questionada pela irrealidade das passagens surreais em que Riggan Thomson  (Michael Keaton) se esconde por trás do herói que dá nome ao filme, mas mesmo aí nos vemos diante de uma obra com críticas pesadas e diretas, e dessa vez o diretor mexicano não extrai suas premissas de nenhum bando marginalizado em uma cidade subdesenvolvida nem de estrangeiros ilegais tentando a sorte em um mundo mais atrativo, ele sobe às camadas sociais invejadas e cultivadas pelo público comum e sem piedade desconstrói ao mesmo tempo broadway e hollywood. E não para por aí, ao colocar alguém que interpretou Batman para o papel de um ator que está praticamente morto para o cinema e que só vai fazer teatro para se reencontrar com público e crítica para alavancar carreira e fazer o quarto filme da saga do Birdman, Iñárrito além de dar nomes aos bois expõe o lado escuro do estrelato e do poder irresistível do dinheiro, que mais faz mover a indústria cinematográfica para o lado da ambição financeira do que para o lado artístico e talentoso. E esses propósitos ficam claros na construção das personagens, somente o de Michael Keaton é que foi trabalhado na totalidade, a ponto de sabermos seus medos e frustrações, os outros são os coadjuvantes que fazem parte da humilhação, colaborando, inspecionando, opinando ou acompanhando as ambições do “herói” da história. O diretor atinge o objetivo que perseguiu, ele é bom nisso, e através de uma fotografia maravilhosa e de uma edição espetacular ele percorre com maestria os corredores e adjacências de um teatro e assim pinta um mundo cercado de cobiça, inveja, intriga e interesse. Mas o filme é bom? Não sei dizer, a parte técnica sim, sem dúvida, os atores também estão impecáveis, principalmente Keaton. Mas o todo, a união dos fatores, me deixou com uma sensação estranha de confinamento, de mal estar, de vontade de que acabe logo para eu fazer outra coisa que não me perturbe a cabeça. Iñárrito criou um mundo de personagens vis que no fim das contas acabam se dando bem porque pertencem a um mundo onde os valores estão nivelados cada vez mais por baixo, visto por um publico brutalizado que aplaude notícias de tablóides de fofoca e esperam pelo próximo enlatado mais curtido pelas redes sociais. Não sei que gosto de ver isso.
Nota 7,0

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