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sábado, 7 de janeiro de 2012

Que espécie de aniversário é esse que nada tem pra escrever? (By Gian)

Hei de procurar o tema na TV, no periódico. Para me deitar nele. E que importa se não aja nada de bom? Arrastem-me convosco para as covas onde moram, coloquem-me na garupa do mundo até à pobreza a visitar a fome, a morte, os envelhecimentos. O que é idade? Quantos anos passaram? Sete, quarenta e nove, trinta e sete, trezentos, nenhum? A maré recuou tão devagar que sempre a sinto e tão depressa que jamais a senti. O novo e o velho ao mesmo tempo. É como uma febre que toma o lugar das vísceras, qual fígado, qual pulmão, qual estômago. Podridões vegetais, desabamentos, quedas. Abre-se os olhos aparecem, fecha-se e somem. Sou o contrário de todos, daqueles que não pensam, não lamuriam, não sofrem, emudecem, agradecem.

Há momentos que me sinto tão só que tudo grita o meu nome me querendo, como antigamente meu pai a chamar-me no quintal:

- G-I-A-N-C-A-R-L-O

Onde me escondia num cantinho entre muro e bambuzal que costumava fazer pipa. Ajoelhado a terra a chorar de rir com formigas, respirando o cheiro misturado do meu cheiro de forma que eu era terra e natureza também. Mexendo em gravetos e folhas sem pensar em nada, sem vontade de nada, só rindo do meu sumiço, e a minha mãe enorme porque adultos enormes:

- G-I-A-N-C-A-R-L-O

Enorme como eu agora, trinta e sete, sete, quarenta e nove, trezentos, nenhum, que diferença faz? Idade, ano, invenção humana. O cão tem sete mas para ele é quarenta e nove por que multiplica por sete. Um dia igual ao outro para todos, sete. Há outros mistérios mais empolgantes do que números, datas e anos, sentimentos cujas origens nos escapam, que nos esforçamos em vão para descobrir de onde vêm.

Sete anos no quintal, trinta e sete aqui, na cadeira, com o apartamento todo me voltando contra o peito, e no entanto o mesmo muro a esconder-me da onda, aquela vinda do fim do mundo e que não acaba nunca, tentamos vê-la e não vemos, sem espuma, sem reflexo, humilde. Só muro me protege, mas me chamam, eu ouço:

- G-I-A-N-C-A-R-L-O

XXXVII as X.

Um comentário:

  1. Eu gostava de me esconder dentro do guarda roupa. Ficava horas a fio me amontoando junto a lençóis, colchas, fronhas. Fuxicava o fundo do armário onde encontrava cartas antigas escritas com caneta tinteiro em papel bem fininho, ficavam juntas, embrulhadas em um lenço de seda. Admirava fotos que apareciam dentro de monóculos. Outras vezes sossegava-me ficar no escuro só pra saber quanto tempo eu ia aguentar, quais sensações iria sentir ou simplesmente quanto tempo iria levar para me descobrirem... Para alguém finalmente me achar... Até pq por mais antagônico que pareça... No fundo da alma... Tudo aquilo que se esconde deseja ser encontrado. Ainda bem que te encontrei, meu amigo!!! Sempre que for parar lá no quintal, depois de fuxicar ao seu redor e brincar com as formigas que aparecerem, lembre-se de mandar um sinal de fumaça que eu apareço pra gente matar a saudade numa tarde bucólica tomando uma gelada... Te adoro! bjks

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