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terça-feira, 10 de abril de 2012

Temos Papa? (by Gian)


O que aconteceria se o novo Papa, ao acabar de ser eleito, amarelasse em cima da hora?

Essa é a temática da nova obra prima de Nanni Moretti “Habemus Papam” que nos põe de cara com os ritos eclesiásticos que antecedem e sucedem a escolha do líder mundial da igreja católica. O filme tinha tudo pra ser chato, mas a ironia presente a cada cena, a cada tomada, prende a atenção sobre o que se passa no íntimo do ser humano ao receber tão significativa diligência, expondo seus medos, suas convicções e até mesmo sua fé: a dúvida naquilo que sempre acreditou e se espelhou por toda a vida. É muito comum no cristianismo, e até em outras religiões, o fiel que, ao tentar persuadir outrem a se filiar na sua doutrina dogmática, apela para sentimentos que norteiam ou nortearam nossa vida em determinado momento emocional, como por exemplo, na perda de um ente querido. Ao estarmos necessitando de compreensão sobre um triste acontecimento ocorrido, nos aparece àquela voz de apoio, um guia espiritual bem intencionado cujas palavras se fundamentam nas escrituras sagradas. Até mesmo aquele mais descrente se sensibiliza em certos momentos, pois queira ou não o homem é um ser religioso. Ok, mas a proposta da Nanni Moretti nessa excepcional obra é nos mostrar o inverso desta moeda, ou seja, o que acontece com uma pessoa que, já lotada de crença e ensinamentos religiosos, se depara com uma responsabilidade lhe confiada por Deus e que, por circunstâncias pessoais se acha indigno de tal posto, recorrendo assim à ajuda de um psicólogo ateu - pois queira ou não, o homem é um animal racional. É o seu eu dizendo não a tudo aquilo que lhe foi imposto e aceito pela fé. É a dúvida que bate no momento mais importante da sua vida e da sua religião.

Imagina a cena: a Praça São Pedro no vaticano lotada de fieis, repórteres e gente de todo o mundo, e aparece a tal fumaça branca que mostra que o novo pontífice já foi escolhido, todos na expectativa e curiosidade de saber quem é o novo líder católico, porém ninguém imagina que por detrás daquela janelinha onde deveria aparecer o novo Papa está acontecendo um verdadeiro Deus nos acuda, pois o escolhido entrou em pânico e se trancou dentro do quarto. Chamem um psicólogo, deu merda! Do jeito que exponho o texto fica parecendo que Moretti fez uma comédia pastelão, mas não é bem por aí, o filme tem até uma temática bem mais dramática do que engraçada, o diretor foca seu trabalho na dor do personagem, analisa a profunda reflexão e a dúvida de um cristão fiel que no final de um estressante dia de trabalho religioso acredita na missão que lhe é confiada, mas sente que o dever do seu novo papel está fora do seu alcance. Um filme admiravelmente bonito que fala basicamente do reencontro de um homem com seus próprios e autênticos desejos. É uma história política e religiosa, ideal para interpretar comportamento e modos de relacionamento de uma pessoa que por toda sua vida deu ouvidos apenas a uma perspectiva, a um modo de viver. E de repente quer dar um basta em tudo.

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